sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Prólogo: O Anjo, o Espanhol e o Sonho

Começou a correr assim que viu o reflexo vermelho no céu e sentiu o cheiro de fumaça. Cada passo parecia em câmera lenta, cada som abafado pelas batidas do próprio coração. Tum-tum corra! Tum-tum mais rápido! Deixou sua caça para trás e acelerou, cada vez mais rápido. Folhas e galhos batiam em seu rosto, galhos quebravam em baixo de seus pés, seus pulmões queimavam pelo esforço. Mais rápido!
Antes de chegar até o chalé já sentia o calor. O fogo tomara tudo, a forja, a plantação, o celeiro. Nada se mexia além das chamas. Gritando o nome de seus anfitriões, entrou no chalé. Encontrou Santiago caído em meio a sangue, com o fogo perigosamente próximo. Pegou seu mentor nos braços e correu para fora.
Mal deitou Santiago na grama, já se preparando para entrar novamente no inferno que se transformara sua casa a procura de Helena, sentiu…
Se levantou, consciente daquela presença. Quem quer que fosse, exalava sede de sangue e dor. Se virou, levando a mão calmamente ao cabo de sua arma.
- Olha o que sobrou por aqui… Parece que o velho ainda tinha algumas surpresas.
Asas. Foi o primeiro pensamento dele ao olhar para o dono da presença maligna. Asas e sangue nas mãos.
- O Roberto não me deixou brincar com a criança humana, mandou queimar tudo aqui… Acho que isso te inclui, não? Vamos nos divertir um pouco.
Asas. Uma presença opressora. Olhos sádicos, de assassino. Ele nunca tinha visto um Nephilim de perto, mas não tinha dúvidas de que aquele ser na sua frente era um. Uma das criaturas mais letais do mundo. Puxou sua espada da cintura e a apontou para o nephilim. A lâmina, transparente, brilhou, como se sentindo o ódio do meu manejador e o sangue de seu criador, caído inconsciente no chão.
- Onde está Helena?
A voz era calma. O aperto na espada, firme. O olho esquerdo fixo no adversário. O direito, robótico, analisando cada pequeno movimento.
- Não importa pra você, não é? Você vai morrer!
Com uma rapidez que nada tinha de humana, o nephilim partiu para cima de ezequiel, sacando uma cimitarra e desferindo um golpe com uma força absurda.
A espada dele brilhou e mudou de cor. Ficou negra, e chamas da mesma cor tomaram toda a lâmina. O ódio lhe veio, e ele deixou seus instintos lhe guiarem. Defendeu um, dois, três golpes do anjo, seu olho robótico avaliando os movimentos adversários. Não era um guerreiro, apesar da força e rapidez sobre-humanas. Com dois movimentos calculados, ele desarmou-o. Mais dois movimentos e prendeu o nephilim contra uma árvore, com a lâmina incandescente contra o pescoço.
- As armas desse velho são realmente formidáveis! E você é um espadachim muito bom! Com certeza um metahumano pra ter conseguido me acompanhar. Bem, não importa, meu trabalho está feito, até mais!
O golpe pegou-o de surpresa. A asa do nephilim lhe acertou de lado, o jogando longe. Nada pode fazer ao ver a criatura levantar vôo e sumir na noite.
Correu aé Santiago. O velho senhor estava acordado, mas visivelmente fraco.
- Filho, - chamou - estou morrendo. Me prometa…
Sangue saiu da boca do senhor, fazendo-o engasgar.
- Você não vai morrer mestre. Não fale, poupe energia.
Com algum esforço, o velho senhor tirou do pescoço um medalhão de metal, uma Cruz de Santiago, e a colocou nas mãos calejadas dele.
- Deixe-a lhe guiar - falou, forçando-o a fechar as mãos em volta do medalhão - e me prometa que vai protegê-la, me prometa, Ezequiel...


Ezequiel acordou sobresaltado. A cruz de Santiago pendurada no seu pescoço queimava a pele, suor lhe cobria todo o corpo. Suas mãos procuraram automaticamente sua espada de metal da Fenda. Tudo estava quieto e escuro, sua pequena fogueira apagada a muito.
Tocou a pequena cruz em seu pescoço. Sempre que sonhava com a morte de seu mestre Santiago, ou melhor, com a morte do ultimo Grão Mestre da Ordem de Santiago, aquele amuleto ficava quente. E isso sempre era um aviso de que algo importante estava para acontecer.
Resolveu levantar acampamento. A runa de combustível da moto estava acabando, iria durar somente até a Vila Diadam. Lá esperava encontrar um antigo contato de seu mestre, e com sorte, um ferreiro habilidoso para recarregar a runa. Mais sorte ainda, se descobrisse alguma nova pista sobre o paradeiro de Helena ou do renegado nephilim Roberto.
Ainda tinha esperanças, mesmo após aqueles longos três anos.
Afinal, tinha prometido protegê-la...

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Capítulo 2: A Caixa e o Poema

- Não, não, não. É impossível. Ezequiel andava de um lado para o outro dentro do quarto do hotel. Amanda estava sentada em sua cama, com ...