Vila operária de Diadam, março de 257DH
Ezequiel olhava a rua abaixo da janela da pequena estalagem onde resolveu passar a noite. Admirava o domo da cidade de Purificação no horizonte. Tinha que admitir, era uma obra linda: um domo perfeito, com 20 quilômetros de diâmetro, feito de um material transparente e de aparência frágil, mas muito resistente. Diziam que podia resistir até mesmo às armas de guerra dos nephilins.
Andou até a cama e despiu com cuidado suas armas: o cinto com a espada da cintura, as duas pistolas arcanas presas aos dois coldres gêmeos das costas, as facas de arremesso das botas e por último o colar com a cruz de Santiago.
Se dirigiu ao banheiro anexo, largando as roupas pelo caminho. Ligou o chuveiro e entrou na água fria, deixando-a levar toda a poeira da viagem.
Não tinha encontrado nenhum ferreiro que conhecia as artes arcanas, mas conseguira negociar um pouco de gasolina no mercado. Era um substituto pouco a altura para sua runa de combustível, mas teria que se virar com isso por um tempo.
Chegara cedo, um dia antes do combinado para o encontro com seu contato, mas era um homem precavido, queria evitar surpresas. Poucas pessoas eram realmente confiáveis, principalmente quando se tratava de trabalhos como o dele.
Desde o dia que acordara, sem memória, no meio de uma floresta e conhecera Helena e seu avô Santiago, aprendera muito. Não gostava de matar, mas possuía um talento singular, que somado a seu olho direito, mecânico, lhe conferira o título de melhor caçador de recompensas do hemisfério sul.
Saiu do chuveiro e se vestiu. Iria encontrar seu contato naquela noite. Como sinal de boa fé, se armou apenas com as facas e a espada. Saiu o quarto, tomando um cuidado extra ao trancar a porta: apenas uma de suas armas, assinadas pelo lendário ferreiro Santiago, poderia deixar qualquer ladrão rico, mas também seria desastroso se utilizadas sem o devido treinamento.
Algum lugar da Mata Atlântica, setembro de 250DH
- Vamos ver se você entendeu, acerte naquela marca da árvore - Santiago estendeu a pistola recém forjada por ele para Ezequiel. - Lembre-se, o coice é menor mas você ficará exausto mais rápido.
Ezequiel pegou a arma, admirando como era bela. De um metal negro como a noite, com o tambor em cinza e o cabo de mogno, ambos adornados com símbolos de poder. Dos dois lados da empunhadura, a cruz pátea que adornava todas as criações do velho Santiago, a mesma que ele levava com tanto orgulho pendurada em uma corrente prateada.
Com um movimento do punho, fechou o tambor de 6 tiros ainda vazio e mirou onde o mestre apontava. Se concentrou, sentindo o calor característico do que agora sabia se chamar arma arcana. Santiago era um dos poucos mestres ferreiros que sabiam trabalhar com as runas arcanas e com metal da fenda. Cerca de uma vez por mês uma caravana vinha até a clareira em que treinavam, negociar as belas e mortais armas. O principal comprador era Benvindo Ventura, uma figura ímpar, tanto na forma espalhafatosa de se vestir como na de falar. Sempre tratava Santiago por mestre, e nos últimos meses mostrou interesse por Ezequiel também.
Se concentrando no presente, Ezequiel puxou o gatilho. Imediatamente sentiu uma forte vertigem e suas pernas arquearam, não caindo no chão somente por que Santiago lhe escorou.
- Não coloque tanta energia no tiro, Ezequiel - tirou a pistola das mãos trêmulas do aluno e desferiu três tiros sem nem olhar para a árvore. Os três foram certeiros. - Vamos começar te treinando com projéteis de verdade. Pode ser uma pedra, um pedaço de madeira, qualquer coisa que caiba no tambor. O dreno de energia será bem menor, deve servir até você se acostumar a controlar.
Com um pouco de dificuldade, mas já se recuperando, Ezequiel seguiu Santiago de volta à forja. Ainda não entendia por que uma pessoa tão habilidosa escolheria viver tão longe de tudo, mas admirava Santiago, e gostava muito da sua neta, Helena. Ambos tinham lhe acolhido, depois de acordar sem memória no meio da floresta, de braços abertos, Helena com seu jeito carinhoso, e Santiago como se ele fosse seu filho de sangue, lhe ensinando muito da arte da forja e manejo de armas…
Vila operária de Diadam, noite de março de 257DH
Ezequiel abriu a porta do Cervo de 6 Patas, o mais sujo (e famoso) inferninho dos arredores de Purificação. A música tocava alta, mas a casa estava relativamente vazia: alguns humanos e dois ou três operários protohumanos bebendo, enquanto assistiam uma metahumana fazer um strip-tease em cima do balcão, expondo seus três seios e sua pele escamosa em troca de alguns trocados.
Se dirigiu até uma mesa num canto mais afastado e se sentou. Suas informações diziam que Benvindo iria até lá naquela noite, e Ezequiel precisava conversar com o obeso bufão. Ele era excêntrico, mas sempre possuía informações valiosas e trabalhos bem pagos pra oferecer.
- Irá comer alguma coisa ou só beber? - O barmam mal encarado veio silenciosamente, mas Ezequiel já estava acostumado com esse tipo, queriam impor respeito aos clientes para evitar confusão dentro do estabelecimento, mas viravam bebês chorões depois de algumas (muitas) doses de whisky.
- Me sirva alguma carne que tinha o número certo de patas e cabeças quando estava viva e uma xícara de café - olhando o barmam se afastar, pensou que era muito improvável que a carne não fosse de animais mutantes e o café, restos desprezados pela população de Purificação, mas era a realidade do lugar: humanos puros viviam no conforto, com tudo de bom e melhor, dentro do domo, enquanto os mutantes ou muito pobres, mas essenciais para a manutenção da cidade, viviam de restos nas vilas satélites em volta.
Quando a comida chegou (um frango assado com uma aparência bom e um café amargo e preto) os trabalhadores das fábricas do entorno começaram a entrar. Uma cacofonia de grandes e burros protohumanos, metahumanos, com suas aparências quase totalmente humanas com pequenos detalhes que provava sua ascendência mutante, alguns humanos mais pobres, e alguns andróides, com braços ou pernas de metal, uma tecnologia muito inferior a do seu olho, mas mesmo assim poderosos e mortais. Com seu olho mecânico avaliava cada um deles em busca de Benvindo, mas seu olho bom estava preso em uma mulher que entrara por último.
Era bela, talvez a mais bela que já tinha visto. Andava como um felino, com graciosidade e leveza. Poderia enganar facilmente alguém despreparado, se passando por humana, mas para um guerreiro como Ezequiel não restava dúvida de que era uma metahumana, e muito poderosa por sinal. Ela mantinha contato visual com ele, e seguiu diretamente até sua mesa, sentando sem cerimônia nenhuma, cruzando as pernas com sensualidade.
- Peça um vinho pra mim.
Dominadora. Alguém acostumada a ser servida. Não estava errado, estava diante de uma leoa.
- Por que deveria? Estou esperando alguém, se não se importa - fez um gesto de dispensa com a mão.
- Por que Benvindo não virá. Ele é um humano puro, e rico, possui livre acesso aos portões de Purificação, quando precisa de algo da vila, manda um mensageiro. E já que você está esperando a toa, me pague um vinho.
Ela tinha razão. Benvindo não era o tipo de pessoa que frequentava aquele tipo de lugar, mas a informação veio de alguém confiável, ele não podia se dar ao luxo de deixar escapar essa oportunidade.
- Não fique bravo, sua informação não estava errada, eu espalhei o boato de que ele viria hoje para lhe atrair, caçador Ezequiel.
- E você quem seria?
- Amanda. Temos negócios a tratar.
Amanda, a devoradora de homens. A rainha cafetina. A suprema espiã. Ezequiel conhecia a fama dela: enfeitiçava homens para lhe arrancar segredos, negociava moças e rapazes com ricos que queriam se divertir, possuía a fama de ser uma das únicas metahumanas a ter passagem nas cidades que proibíam mutantes.
- Preciso que você entregue um… Recado meu a um conde, e em troca, sei onde o renegado Roberto estará no mês que vem. Mas primeiro, meu vinho.
- Garson! O melhor vinho da casa para minha convidada.
Em meio ao nosso mundo de luz, existe o Mundo das Trevas. A Fantasia da Meia Noite vem, carregando meus sonhos, me tornando a verdadeira Escuridão Sintética
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Capítulo 2: A Caixa e o Poema
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