- Não, não, não. É impossível.
Ezequiel andava de um lado para o outro dentro do quarto do hotel. Amanda estava sentada em sua cama, com as pernas cruzadas, olhando-o gastar o solado das botas. Ainda segurava a garrafa de vinho que ele lhe comprara, agora pela metade.
- Não é impossível. Não pra você, pelo menos.
- Primeiro, é impossível entrar em Purificação sem autorização…
- Isso é fácil conseguir. Nem dará muito trabalho, você não é metahumano.
- Segundo, a casa estará cheia de guardas - continuou falando, como se não tivesse ouvido a interrupção - e terceiro, ele é um mago de guerra. Ninguém rouba de um mago e sai ileso.
Amanda apenas ficou olhando para ele, daquele jeito sensual mas com um toque de poder. Encheu sua taça mais uma vez. Já era a terceira ou quarta vez? Ezequiel já tinha desistido de contar.
Ainda no bar, ela lhe estendeu uma pasta. Ele não sabia de onde ela tinha tirado uma pasta do justo vestido azul, mas achou prudente não responder. Amanda era conhecida como uma metahumana muito poderosa, mas ninguém tinha certeza de qual habilidade possuía. Dentro da pasta havia duas fotos, uma de um senhor beirando os 50 anos, usando uma túnica marrom e um cinto de elos entrelaçados, o uniforme do Clã Mágico. A outra era de uma urna simples, de madeira polida, com O.S. gravado em seu topo. Alguns outros papéis incluíam a planta baixa de uma mansão e alguns dados sobre o mago.
Mas o que ela pedira em troca da informação era inviável: “recuperar” a tal urna do mago. Amanda lhe contou que o tal mago, de nome Meril, tinha conseguido roubar a urna da coleção particular dela. Ezequiel não era um ladrão, mas tinha feito coisas muito piores por informações muito menos proveitosas do que a que ela lhe oferecia. Não, esse não era o problema.
Santiago lhe ensinou o combate com armas e a arte da guerra e guerrilha, mas sempre lhe alertou a evitar combates com magos, principalmente magos de guerra, que aperfeiçoaram os poderes ocultos retirados de além do véu para o assassinato em combate.
Existia também um segundo problema: podia confiar em Amanda? Sua fama lhe precedia, Uma ex-escrava, diziam, dona de um império de prazer, império este construído sobre segredos roubados, chantagens e manipulações. Se a informação que oferecia em troca estava correta, Ezequiel não tinha certeza, mas a fama dela fora construída exatamente por saber de coisas que poderiam mudar o mundo. Por que ela viera até uma vila operária apenas para encontrá-lo?
- Posso ver a dúvida em seus olhos, Ez. - Ele parou sua marcha e olhou para ela. Somente Helena o chamava de Ez - Magias são facilmente anuladas por metal da fenda, tenho certeza q essas suas armas magníficas irão te proteger. Meril é um bufão, ele usa golens em batalhas, não há o que temer dele. E ambos sabemos que mesmo a magia mais poderosa não iria te dar muito trabalho.
Era verdade. Ezequiel não era um metahumano, mas não sabia exatamente o que era. Tudo antes de Helena o encontrar na floresta era escuridão em sua mente, mas seu corpo sabia como ser letal em combate, e descobriu após um acidente na forja de Santiago que magias fortes suficientes para matar um humano comum apenas lhe machucavam superficialmente. “O Dom”, dizia Santiago.
- Como você sabe disso? - Chegou mais perto dela, e tirou a garrafa de suas mãos. Apenas Santiago sabia disso, eles não tinham nem mesmo contado pra Helena
- Eu sei de muitas coisas. Sei que ninguém além das pombas conseguem manipular o metal da fenda por muito tempo sem perder a vida, ou a sanidade. Sei que usar bainhas de chumbo é a única forma de conter as radiações do metal. Mas você não é um nephilim, mas mesmo assim usa as armas forjadas por Santiago sem ser afetado por elas. Você consegue absorver tiros arcanos menores sem nem ao menos se machucar. Sei que usa o amuleto de Santiago pendurado no pescoço e que não se lembra de nada antes dele te encontrar.
Ele jogou a garrafa que estava segurando contra a parede, e antes dela se quebrar, ele já estava segurando o pescoço de Amanda.
- COMO VOCÊ SABE DISSO? - Mesmo sendo suspensa pelo pescoço, Amanda abriu um sorriso provocativo. - Quem é você?
- Santiago confiava em mim. Me pediu para pesquisar seu passado quando você apareceu na casa dele. Olhe - saída de lugar nenhum, ela estava segurando uma vizcaina, uma adaga utilizada como segunda arma em combates. No cabo, o inconfundível Símbolo de Santiago, a cruz idêntica das armas dele, e do brasão que levava no peito.
Santando-a, pegou a arma e a examinou. Leve, bela, envolta em uma bainha de chumbo adornada com runas que falavam de contenção e proteção. Com certeza um trabalho de Santiago, forjada com metal da fenda tão puro quanto sua espada. Vira uma parecida no chalé uma vez, e apostava que eram gêmeas, criadas para serem usadas juntas por um assassino, não para um guerreiro. A que ele conhecia tinha desaparecido após o incêndio, como várias outras armas pessoais, roubadas por Roberto e sua corja.
- Precisava desperdiçar meu vinho? - De pé, ela olhava para a taça derramada no lençol e para a garrafa quebrada - Santiago salvou minha vida. A urna que Meril me roubou pertencia a Ordem, e Santiago me confiou ela antes de se tornar Grão Mestre. O.S. significa Oswaldo Santiago, o nome verdadeiro dele. Não sei o que está dentro dela, mas com certeza não é algo para os olhos de um mago.
Se aquilo era verdade, havia grandes chances dele descobrir mais sobre a Ordem. Agora eram dois motivos para aceitar o trabalho…
Amanda, vendo que ele já estava mais calmo, limpou a garganta e começou a recitar:
Não creia em tudo que vê
Só dá atenção à tua intuição
E se abriga na dúvida.
Aguça teu talento
Leve tua alma ao bosque
E adivinha onde a morte se escondeu.1
Ezequiel conhecia aquelas palavras. Estavam gravadas na parte de trás do medalhão. Ela estava falando a verdade, conhecera Santiago, talvez até melhor do que ele, que morou sob o mesmo teto e foi treinado durante três anos pelo velho senhor.
- Me conte como conheceu Santiago.
- Sim. Sente-se, a história não será tão curta.
1 Trecho da música La Cruz de Santiago, da banda Mago de Oz. Traduzido pelo Google.